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domingo, 16 de abril de 2017
quinta-feira, 30 de março de 2017
Projeto de Alfabetização Musical e Corporal em Cultura Afro-brasileira e Afro-uruguaia de 2017
É com muita fé, muito amor e muito carinho que apresentamos o Projeto de Alfabetização Musical e Corporal em Cultura Afro-brasileira e Afro-uruguaia de 2017. O Instituto Cadê Zumbi? agradece a todos envolvidos pela organização. ASÈ!
domingo, 26 de março de 2017
Sincretismo Religioso na Festa de Nossa Senhora das Águas em Canoas!
Escrevi este artigo para a Revista Memória e Linguagens Culturais - do Programa de Pós-graduação da UNILASALLE.
confira no link abaixo:
CONSTRUÇÕES DA MEMÓRIA GERACIONAL NA LITERATURA AFROBRASILEIRA: DOIS EXEMPLOS
Escrevi este artigo com a querida Zilá Bernad, confira no link abaixo.
Resumo: Este texto apresenta a ocorrência da memória geracional na literatura afro-brasileira atual. Discute dois exemplos: o primeiro em prosa e o segundo sob a forma de poema. Neles, emerge a memória geracional que se caracteriza pela transmissão da memória familiar ou parental de uma geração à outra, com a intenção de que a memória dos ancestrais venha a constituir-se no núcleo duro sobre o qual poderão ser reconstruídas as memórias individual e coletiva dos afro-brasileiros.
Palavras-chave: memória geracional; literatura afro-brasileira; memória individual; memória coletiva.
http://www.unilasalle.edu.br//public/media/4/files/anais_3_jornadas_final.pdf
O Instituto Cadê Zumbi?
O Instituto Cadê Zumbi?, coletivo de agentes, multiplicadores e ativistas culturais no fomento e preservação das culturas como ferramentas pedagógicas de educação, promoveu neste final de semana um encontro cultural com Mestre Cabello Capoeira Angola, neste encontro tivemos oficinas de Dança e Percussão. O evento foi um sucesso!
Confira as fotos:
Cabello Caobijubá
Nasceu em Piracicaba, São Paulo, Brasil. Cabello mantém a tradição de seus antepassados viva dedicando sua vida aos ritmos, aos instrumentos, às canções e às danças da cultura Afro-Brasileira. Cabello tem praticado Capoeira desde os anos 80 onde foi aluno do Mestre Gil (Novo Engenho -Beira Mar), Mestre Cosmo e Mestre Zequinha do grupo Cativeiro e depois Capoeira angola Raíz de Angola e tem ensinado e praticado nos EUA desde 1990. Um capoeirista profissional e com vasta experiência em apresentações, espetáculos, cursos e palestras, é orgulhoso ser discípulo do famoso Mestre João Grande de Capoeira Angola sendo um dos seus mais velhos alunos desde que começou a dar aulas nos Estados Unidos em 1990. Estuda ritmos e a dança Afro-Brasileira e é também discípulo da Professora Emilia Biancardi etnomusicologista da cultura brasileira e do mestre de tambores Jorge Alabê.
Participa no Brasil dos eventos tradicionais, encontros e festivas espontâneos, além de ensinar e de viver entre Bahia e New York no exterior. Desde 1990 Cabello tem ensinado, praticado e exposto Capoeira Angola e música Brasileira a través do planeta inteiro do Sul á America do Norte, o Canadá, a Europa, a Ásia, a África e Oceania.
Cabello é também percussionista e artesão na confecção de instrumentos de percussão como caxixis, berimbaus , agogôs e outros . Desde 2003 Cabello Rolim e Tisza Coelho iniciaram o projeto fazenda Cultural OuroVerde no sul da Bahia, Brasil criando o centro de Capoeira Angola OuroVerde onde apoiam a criação , a apresentação, a instrução, e a preservação da cultura Brasileira; e para criar e aprofundar a apreciação e a sustentação públicas para Capoeira, dança e música. Preservando o ambiente natural, asseguram futuro sustentável para crianças locais com o desenvolvimento artístico, cultural e social. Promove e participa de movimentos comunitários para desenvolvimento econômico ecológico e cultural da comunidade local. Em 2009 inicia a elaboração do centro cultural permanente de Serra Grande o Barracão D’Angola onde passa a dar aulas de Capoeira , dança e musica para a comunidade e entorno da vila de Serra Grande na Bahia tornando o centro uma referencia mundial para a continuidade da tradição oral afro brasileira .
Atualmente, vive entre Bahia e o mundo onde ensina Capoeira Angola, Maculelê, Samba percussão Brasileira e confecção de instrumentos com diversos grupos de capoeira e com seus grupos: Centro de Capoeira Angola OuroVerde (Serra Grande , Saleiro e Algodoes Bahía Brasil, Cidade de Goiás, Cidade do México , Xalapa México e Flagstaff USA). de batucada e performance: Korimbata’ Samba (NY USA) e grupo de Batucada e percussão Trovão da Serra (Bahia) e lançou também três CD musicais de capoeira ultimamente com Tisza Coelho, Mestre Virgilio de Ilhéus e de Mestre Azulão Baiano.
www.caxixi.com
https://www.facebook.com/cabello.caobijuba
https://www.youtube.com/c/BarracãoDAngola
segunda-feira, 19 de setembro de 2016
Movimento da Negritude
O movimento da negritude nasce fora da África
O movimento da negritude, segundo Petrônio Domingues, foi idealizado fora da África, provavelmente tenha surgido nos Estados Unidos, passou pelas Antilhas; em seguida atingiu a Europa, chegando a França onde adquiriu corpo e foi sistematizado. Depois, o movimento expandiu-se por toda a África negra e as Américas (inclusive o Brasil), tendo sua mensagem, assim, alcançado os negros da diáspora.
O afro-americano W. E. B. Du Bois (1868-1963) é considerado o patrono do panafricanismo, movimento político e cultural que lutava tanto pela independência dos países africanos do jugo colonial quanto pela construção da unidade africana. Pelo fato de Du Bois ser uma das primeiras lideranças a adotar com veemência um discurso de orgulho racial e de volta às origens negras é considerado da mesma maneira, o pai simbólico do movimento de tomada de consciência de ser negro, embora o termo negritude tenha sido cunhado somente anos mais tarde. Du Bois exerceu forte ascendência sobre os escritores negros estadunidenses. Seu livro Almas Negras "tornou-se verdadeira bíblia para os intelectuais do movimento Renascimento Negro".
Por volta de 1920, surgiu no bairro negro de Nova Iorque, o Harlem, nos Estados Unidos, um movimento literário e artístico denominado New Negro (ou "Negro Renaissance"), cuja proposta cultural era "exorcizar" os estereótipos e preconceitos disseminados contra o negro no imaginário social. Ao contrário de lamentarem-se pela sua condição racial, os ativistas do movimento enalteciam a cor do povo negro em suas obras.
Segundo Nascimento, Price-Mars, "precursor e mestre da liderança negra independentista da luta nacional africana contribuiu muito para a formação do importante movimento da negritude". Aimé Césaire vai mais longe, preconizando que "o Haiti foi o país em que a negritude se ergueu pela primeira vez". Em Paris, no período entre-guerras, um grupo de estudantes negros oriundos dos países colonizados (Antilhas e África) iniciou um processo de mobilização cultural.
Quando esses estudantes começaram a frequentar as universidades européias - sobretudo as de Paris e Londres - constatou que a civilização ocidental não era um modelo universal e absoluto tal como era ensinado na colônia. Nesse contexto, despertou-se uma consciência racial, e, por conseguinte, a disposição de lutar a favor do resgate da identidade cultural esvaecida do povo negro.
Em junho de 1932, alguns estudantes negros antilhanos publicaram uma revista, a Légitime Défense (Legítima Defesa), tendo editado só um número. O tom é de um manifesto. Nessa revista denunciavam a opressão racial e a política de dominação cultural colonialista. O alvo do ataque também era “o mundo capitalista, cristão e burguês”. Os jovens escritores defendiam que o intelectual devia assumir sua origem racial. Além disso, apregoavam a libertação do estilo, da forma e da imaginação frente aos modelos literários franceses.
Conforme Petrônio Domingues, dois anos depois em 1934, os estudantes negros em Paris lançam a revista L´étudiant Noir (o Estudante Negro). Léon Damas proclamava: "não somos mais estudantes martinicanos, senegaleses ou malgaches, somos cada um de nós e todos nós, um estudante negro". Daí o título da revista. Contrapondo-se a política assimilacionista das potências europeias retomaram a bandeira a favor da liberdade criadora do negro e condenaram o modelo cultural ocidental. Como instrumentos ideológicos de libertação, advogavam o comunismo, o surrealismo e a volta às raízes africanas. A revista teve importância fundamental na difusão do movimento. Organizando reuniões, exposições, assembleias, publicando artigos e poemas em outras revistas, esse grupo conseguiu progressivamente transmitir uma imagem positiva da civilização africana. Deste período adquiriram notoriedade os três diretores da revista: Aimé Césaire (Martinica) - que foi o criador da palavra negritude - Léon Damas (Guiana Francesa) e Léopold Sédar Senghor (Senegal).
Esse movimento literário a favor da personalidade negra e de denúncia contundente da dominação cultural e da opressão do capitalismo colonialista marcou a fundação da ideologia da negritude no cenário mundial.
A Negritude no Brasil
Luís Gama (1830-1882), líder abolicionista, advogado e poeta negro é considerado, segundo Petrônio Domingues, o precursor da ideologia da negritude no Brasil. Sua postura ideológica e produção poética, materializada na coletânea Primeiras Trovas Burlescas (cuja primeira edição é de 1859) inauguraria o discurso de afirmação racial no país. No entanto, as idéias do movimento francês da negritude somente chegaram ao Brasil na década de 1940, por meio, sobretudo do Teatro Experimental do Negro (TEN), entidade fundada em 1944 no Rio de Janeiro, e voltada inicialmente para desenvolver uma dramaturgia negra no país. Na medida em que foi adquirindo projeção, o TEN adquiriu um caráter mais amplo e passou a atuar em diversas áreas, sempre tendo em vista a afirmação dos valores negros.
Quando o grupo surgiu, a negritude passou a ser a ideologia mais geral, que imprimiu um sentido para o pensamento e as ações dos ativistas. Para o TEN, mais do que um sistema de idéias, negritude era uma filosofia de vida, uma bandeira de luta de forte conteúdo emocional e mítico, capaz de mobilizar o negro brasileiro no combate ao racismo, redimi-lo do seu complexo de inferioridade e, por conseguinte, fornecer as bases teóricas e políticas da plena emancipação.
Tal como na versão francesa, a negritude foi um ideário que floresceu no Brasil como expressão de protesto da pequena-burguesia intelectual negra (artistas, poetas, escritores, acadêmicos, profissionais liberais) à supremacia branca. Tratou-se de uma resposta dos negros brasileiros em ascensão social ao processo de assimilação da ideologia do branqueamento. Para Guerreiro Ramos, a negritude permitiu libertá-los "do medo e da vergonha de proclamar sua condição racial". Os postulados da negritude representaram um divisor de águas no movimento negro brasileiro na medida em que consolidaram a luta pela afirmação (ou orgulho) racial.
Entretanto, os intelectuais negros que conclamavam a negritude no Brasil jamais teriam dado uma formulação explícita e sistemática ao conceito, isto é, em nenhum instante transformaram a ideia vaga e difusa de negritude em propostas concretas ou, em última instância, traduziram a negritude em um projeto mais geral para resolver o problema do negro brasileiro.
A ideologia da negritude foi antes de tudo, um movimento de resgate da humanidade do negro, o qual se insurgiu contra o racismo imposto pelo branco no contexto da opressão colonial. O movimento tinha a proposta de repudiar os valores estéticos da civilização ocidental. Havia uma tendência dos povos negros colonizados na África e nas Antilhas de assimilar o padrão cultural europeu, alienando-se dos valores da cultura africana.
FONTE:
http://kilombagem.org/wordpress/wp-ontent/uploads/2015/07/Movimento_da_negritude_Uma_Breve_Reconstrucao_Historica-PetroniDomingues1.pdf
Por que precisamos de escritoras e escritores negros?
Segundo Regina Dalcastagnè, precisamos de escritoras e escritores negros porque são eles que trazem para dentro de nossa literatura uma outra perspectiva, outras experiências de vida, outra dicção. Na sociedade brasileira, a cor da pele – assim como o gênero ou a classe social – estrutura vivências distintas. Precisamos de mais negras e negros, moradoras e moradores da periferia, trabalhadoras e trabalhadores escrevendo, não para coletar um punhado de “testemunhos” (o nicho em que em geral são colocados), mas para que sua sensibilidade e sua imaginação deem forma a novas criações, que refletirão, tal como ocorre entre os escritores da elite, uma visão de mundo formada a partir tanto de uma trajetória de vida única quanto de disposições estruturais compartilhadas.
São essas vozes, que se encontram nas margens do campo literário, essas vozes cuja legitimidade para produzir literatura é permanentemente posta em questão, que tensionam, com a sua presença, nosso entendimento do que é (ou deve ser) o literário. É preciso aproveitar esse momento para refletir sobre nossos critérios de valoração, entender de onde eles vêm, por que se mantêm de pé, a que e a quem servem… Afinal, o significado do texto literário se estabelece num fluxo em que tradições são seguidas, quebradas ou reconquistadas e as formas de interpretação e apropriação do que se fala permanecem em aberto. Ignorar essa abertura é reforçar o papel da literatura como mecanismo de distinção e da hierarquização social, deixando de lado suas potencialidades como discurso desestabilizador e contraditório.
Com isso, a literatura brasileira pode – talvez – contribuir para uma visão mais plural e mais crítica do próprio país.Leia a matéria completa em: http://scl.io/XiIT9Gxa#gs.AtBtw6Y
domingo, 11 de setembro de 2016
CABELO REFLETE ORGULHO
CABELO REFLETE ORGULHO
O reforço na autoestima pode estar ligado, também, à expressão da beleza. No caso das meninas, o cabelo, que é um elemento de destaque da feminilidade, costuma ser, ao mesmo tempo, alvo de críticas racistas e símbolo da identidade negra. Por isso, as cabeleiras crespas podem ser um dos instrumentos mais fortes de orgulho racial, formas de se assumir um padrão de beleza que vai contra o que a mídia impõe.
de minha querida EDUARDA GOULART BUCHMANN é uma ótimo endereço para aprender sobre beleza afro. A ideia do Negra e crespa é propor a valorização da autoestima de mulher negra. A começar pela aceitação do cabelo crespo!
Autoestima de crianças negras é antídoto contra preconceito
Autoestima de crianças negras é antídoto contra preconceito
Famílias usam estratégias para fortalecer os filhos e ajudá-los a se defender da discriminação
Mariana Mesquita
Todo dia é dia de ressaltar a igualdade entre os seres humanos e a singularidade de cada um de nós. Mas, em meio às comemorações do mês da consciência negra, é angustiante saber que muitas crianças ainda sofrem preconceito por conta de sua cor, cabelo e origem étnica. E é inspirador perceber as formas que as famílias vêm encontrando para reforçar a autoestima de seus filhos, formando cidadãos mais críticos e orgulhosos de si.
Ninguém se engane: a necessidade desse suporte começa muito cedo. Letícia tinha 3 anos quando uma coleguinha da mesma idade, na aula de balé, excluiu-a da brincadeira por causa de sua cor. “Ela era tão pequena que não soube nem relatar o contexto. Para mim foi uma surpresa, não imaginava que teria que explicar isso à minha filha, em pleno século 21. Só assumi que somos diferentes mesmo. Que temos esta cor e que isso é bom”, diz sua mãe, a fisioterapeuta Bernadete Pinheiro. Dona orgulhosa de uma cabeleira cacheada, Alice, de 9 anos, vem sofrendo bullying na escola municipal onde estuda, no Ibura. Irritada por ser chamada de feia e de “cabelo de Bombril”, a menina fez um desabafo nas redes sociais e sua mãe, Marina Melo, está em buscas de providências para que a filha retome o prazer de frequentar a sala de aula. Já Antonio tinha pouco mais de um ano e brincava na praça de Casa Forte quando uma babá se referiu ao seu “cabelo ruim” e à sua “cara de pobre”. Aos 8 anos, dias após ver o padrasto ser confundido com um assaltante por uma senhora do bairro, ele comunicou sua decisão à família. Queria pintar o cabelo de louro. E usar lentes de contato azuis.
SUPORTE É NECESSÁRIO
Diante desse tipo de situação, há quem diga que é exagero ou que não há o que se fazer. “O fato é que o racismo acontece desde a mais tenra idade e muitas crianças entram em grave sofrimento psíquico em função de seu pertencimento racial”, destaca Vera Baroni, que é membro do colegiado da Sociedade de Mulheres Negras de Pernambuco. À família, cabe reforçar a autoestima dos pequenos e falar de sua ancestralidade de forma positiva.
“As crianças precisam aprender a se defender”, ressalta Vera. Isso inclui contar a verdadeira história da África, fugindo dos estereótipos, e oferecer brinquedos, livros e outros objetos que façam referência a essa herança. Mas, mais do que isso, significa ajudar as crianças a fazer uma leitura crítica dos modelos expressos pela mídia e se posicionar contra qualquer forma de preconceito. “É difícil, e o discurso de igualdade às vezes vai ao chão quando, em algumas famílias, se tem vergonha da avó que é preta ou do tio que exerce uma profissão menos valorizada em nossa sociedade”, resume.
Às vezes, o problema acontece entre as próprias crianças. A cantora Isaar de França, terceira de uma “escadinha” de cinco irmãos, sofria bullying por parte do irmão dez meses mais moço. Negro de tez clara e olhos verdes, Esrilton reproduzia em casa o que via na rua e só percebeu os atos que praticava após a adolescência. Isaar passou pelos problemas típicos das meninas negras: ganhava bonecas que não tinham nenhuma característica física em comum com seu fenótipo, amarrava lenços na cabeça para fingir que tinha cabelos longos e lisos, e durante muito tempo foi refém dos alisantes e chapinhas. No fim da década de 1990, assumiu a origem étnica por meio de longos dreadlocks. Hoje, o penteado blackpower é motivo de conversa com a sobrinha Beatriz, de 9 anos, filha de Esrilton. “Ela nasceu com a pele clara e cabelos lisos. Então, eu brincava, comparando nossos cabelos e mostrando que nossos fios são diferentes, mas que está tudo bem em ser assim”, explica.
quarta-feira, 30 de dezembro de 2015
quinta-feira, 24 de dezembro de 2015
quarta-feira, 23 de dezembro de 2015
quinta-feira, 17 de dezembro de 2015
sexta-feira, 5 de junho de 2015
Garoto de Plástico, de Cristiane Sobral
Conto de Cristiane Sobral
publicado no site http://www.quilombhoje.com.br/fic%E7%E3o/cris/cristianegarotoplas.htm
Conheça o blog da Cristiane Sobral: http://cristianesobral.blogspot.com.br/
publicado no site http://www.quilombhoje.com.br/fic%E7%E3o/cris/cristianegarotoplas.htm
Conheça o blog da Cristiane Sobral: http://cristianesobral.blogspot.com.br/
![]() |
| foto: http://racabrasil.uol.com.br/especiais/cristiane-sobral/2525 |
Cristiane Sobral é atriz, escritora e reside em Brasília.
Garoto de Plástico
Tem gente que vem ao mundo a passeio, outros, a serviço. E ele vivia assim, à paisana. Era um indivíduo descartável e nunca fizera o menor esforço. Malhar, só na academia, para garantir o êxito dos amassos noturnos no seu ponto de encontro predileto, as boates, onde costumava caçar seu objeto preferido: mulher. Mulher loira, claro.
Seu jeito era meio distraído durante o dia porque gastava toda a energia à noite, nos agitos. Sua expressão era meio aérea e seu sorriso, completamente sintético. Marcava presença na classe jovem que freqüentava pelo seu nada original nick name: "boy". Aliás, ele considerava-se um dos melhores frutos da era da informática: o gato virtual. Nada de contatos verdadeiros. Não tinha mesmo muitos neurônios disponíveis para desenvolver sua inteligência emocional. Seu melhor trunfo era a memória, medida em gigabytes e equipada com um eficiente kit multímidia. Um gato de plástico motorizado. Tinha um carro do ano com um equipamento de som de última geração. Presente do pai.
Fazia cursinho de inglês, presente da madrinha. "How are you? Fine, thanks". "Cool". Estudava Ciências da Computação numa faculdade privada paga por meio de um rateio feito entre os irmãos mais velhos sem o menor desajuste financeiro. Um garoto de plástico com roupas de marca. Presentes de uma gatinha "shopping-maníaca", que sonhava com o seu amor eterno. "Morena", a menina, até estudiosa. Mas muito pé no chão. O "boy" não agüentava. Papo cabeça. Politicamente correto. Música gospel. Só mesmo apertando o "delete". Que alívio. Preferia suas batatinhas loiras fritas e hambúrgueres de carne, muita carne. Boy. Fazia palavras cruzadas nível moleza e era adepto do discman. Principalmente nas viagens. Uma viagem inesquecível? o primeiro passeio com seu novo e moderno tênis da onda. Pisando em terra firme com seus pés de plástico tamanho 42. Seu maior sonho era um mundo com meias descartáveis. Vida para as meias de algodão do tipo "one way". Liberdade perfumada para dentro dos dedos. Se alguém quiser lavar meias que lave. Que cara de plástico!
Outro dia, na sua aula de inglês reclamou com o "teacher" que não tinha tempo para fazer o dever de casa, o "home-work", porque estava freqüentando a academia regularmente, já que o importante, em sua opinião, era poder ficar sempre orgulhoso de não ter nenhuma dobrinha no abdome sob as suas camisetinhas tipo "mamãe olha como estou forte"..."Mother", sou um garoto de plástico bem forte!
E assim seguia nosso ilustre personagem, em sua existência perfeitamente descartável, de shopping em shopping, de boate em boate, até que um dia, ficou totalmente derretido por uma garota! Isso não fazia parte do seu roteiro de vida, baseado em técnicas yuppies e neurolinguísticas...não, não fazia. Pois aconteceu. Só o amor constrói. Ou destrói. Sob a sua cara-máscara de plástico totalmente derretida, havia um complexo de inferioridade estrutural, que o fez ficar trancado em casa durante quatro longas semanas, período suficiente para deixar crescer seus cabelos raspados à máquina zero a cada sete dias. Seus cabelos eram negros, sua pele cor de azeviche, aquela vida de plástico era um verdadeiro mito, mito de uma democracia racial. Junto com seus cabelos, cresceram algumas idéias...e em noites de insônia sua mente formulara algumas perguntas: quem sou eu? para onde vou? Meu nome é Maurício? Por que me chamam de Mauricinho?
O garoto ficou atordoado e decidiu investigar sua certidão de nascimento. Leu: Nome: Augusto de Oliveira. Cor : Parda. Junto com a certidão de nascimento havia um álbum de fotografias com uma foto de casamento de seus pais. Um casal negríssimo, sem dúvida. Filho de peixe... Augusto. Ficou frente ao espelho do banheiro um longo tempo. Seus olhos refletiam uma expressão bastante dura. Cara de pau. Sem máscara ele até que não era tão estranho. Parecia gente. Parecia com tanta gente. Com toda a população do Brasil, esse país que também usa uma máscara de plástico para disfarçar a cara de pau que lhe permite vez em quando esquecer que está aqui a maior população negra fora da África.
Tem gente que vem ao mundo a passeio, outros, a serviço. E ele vivia assim, à paisana. Era um indivíduo descartável e nunca fizera o menor esforço. Malhar, só na academia, para garantir o êxito dos amassos noturnos no seu ponto de encontro predileto, as boates, onde costumava caçar seu objeto preferido: mulher. Mulher loira, claro.
Seu jeito era meio distraído durante o dia porque gastava toda a energia à noite, nos agitos. Sua expressão era meio aérea e seu sorriso, completamente sintético. Marcava presença na classe jovem que freqüentava pelo seu nada original nick name: "boy". Aliás, ele considerava-se um dos melhores frutos da era da informática: o gato virtual. Nada de contatos verdadeiros. Não tinha mesmo muitos neurônios disponíveis para desenvolver sua inteligência emocional. Seu melhor trunfo era a memória, medida em gigabytes e equipada com um eficiente kit multímidia. Um gato de plástico motorizado. Tinha um carro do ano com um equipamento de som de última geração. Presente do pai.
Fazia cursinho de inglês, presente da madrinha. "How are you? Fine, thanks". "Cool". Estudava Ciências da Computação numa faculdade privada paga por meio de um rateio feito entre os irmãos mais velhos sem o menor desajuste financeiro. Um garoto de plástico com roupas de marca. Presentes de uma gatinha "shopping-maníaca", que sonhava com o seu amor eterno. "Morena", a menina, até estudiosa. Mas muito pé no chão. O "boy" não agüentava. Papo cabeça. Politicamente correto. Música gospel. Só mesmo apertando o "delete". Que alívio. Preferia suas batatinhas loiras fritas e hambúrgueres de carne, muita carne. Boy. Fazia palavras cruzadas nível moleza e era adepto do discman. Principalmente nas viagens. Uma viagem inesquecível? o primeiro passeio com seu novo e moderno tênis da onda. Pisando em terra firme com seus pés de plástico tamanho 42. Seu maior sonho era um mundo com meias descartáveis. Vida para as meias de algodão do tipo "one way". Liberdade perfumada para dentro dos dedos. Se alguém quiser lavar meias que lave. Que cara de plástico!
Outro dia, na sua aula de inglês reclamou com o "teacher" que não tinha tempo para fazer o dever de casa, o "home-work", porque estava freqüentando a academia regularmente, já que o importante, em sua opinião, era poder ficar sempre orgulhoso de não ter nenhuma dobrinha no abdome sob as suas camisetinhas tipo "mamãe olha como estou forte"..."Mother", sou um garoto de plástico bem forte!
E assim seguia nosso ilustre personagem, em sua existência perfeitamente descartável, de shopping em shopping, de boate em boate, até que um dia, ficou totalmente derretido por uma garota! Isso não fazia parte do seu roteiro de vida, baseado em técnicas yuppies e neurolinguísticas...não, não fazia. Pois aconteceu. Só o amor constrói. Ou destrói. Sob a sua cara-máscara de plástico totalmente derretida, havia um complexo de inferioridade estrutural, que o fez ficar trancado em casa durante quatro longas semanas, período suficiente para deixar crescer seus cabelos raspados à máquina zero a cada sete dias. Seus cabelos eram negros, sua pele cor de azeviche, aquela vida de plástico era um verdadeiro mito, mito de uma democracia racial. Junto com seus cabelos, cresceram algumas idéias...e em noites de insônia sua mente formulara algumas perguntas: quem sou eu? para onde vou? Meu nome é Maurício? Por que me chamam de Mauricinho?
O garoto ficou atordoado e decidiu investigar sua certidão de nascimento. Leu: Nome: Augusto de Oliveira. Cor : Parda. Junto com a certidão de nascimento havia um álbum de fotografias com uma foto de casamento de seus pais. Um casal negríssimo, sem dúvida. Filho de peixe... Augusto. Ficou frente ao espelho do banheiro um longo tempo. Seus olhos refletiam uma expressão bastante dura. Cara de pau. Sem máscara ele até que não era tão estranho. Parecia gente. Parecia com tanta gente. Com toda a população do Brasil, esse país que também usa uma máscara de plástico para disfarçar a cara de pau que lhe permite vez em quando esquecer que está aqui a maior população negra fora da África.
quinta-feira, 4 de junho de 2015
terça-feira, 23 de dezembro de 2014
domingo, 14 de dezembro de 2014
Parecer
Parecer para a defesa de
Mestrado do Prof. Breno da Silva Lacerda
Parecerista: Profª
Drª Maria Luiza Berwanger da Silva
(professora do PPG-LET – UFRGS e Mestrado UNILASALLE )

Desejo enfatizar em minha leitura a fertilidade da Epígrafe
escolhida da poesia de Edimilson de Almeida Pereira para matriz inaugural desta dissertação. Percebo que essa epígrafe confere sustentabilidade ao
percurso da investigação no que se refere à discussão sobre as relações com o
mesmo traduzidas pela tipologia de memórias aqui estudadas . A transparência dessa epígrafe antecipa que a
leitura simbólica será demarcada tanto por presenças confessas quanto por
presenças inconfessas sejam estas presenças figuradas por sujeitos, temas,
mitos e ritos culturais claros e estampados nos poemas, sejam estas presenças
figuradas por traços ou resíduos memoriais apenas aludidos.
Quanto
ao resumo, é muito claro e corresponde com verdade ao produto realizado; do
mesmo modo, incluo nesse projeto de realizar ao que se propõe, também os
questionamentos formulados os quais são
todos respondidos eficazmente (o 1º. Parágrafo da página 11, faz–se amostragem
exemplar não só do pensamento lúcido e pontual , mas também do ajuste entre corpus e teoria
no qual a preocupação de estabelecer os procedimentos teóricos para articular
uma pesquisa de natureza qualitativa não se sobrepõe à leitura dos poemas, ao
contrário, esse ajuste entre teoria e prática produz um ritmo que vai
envolvendo o leitor progressivamente na paisagem poética de Edimilson. Ou dito
de outro modo: a constante travessia do poema aos eixos teóricos, ao
evidenciar certo conjunto de temas,
mitos, ritos e subjetividades e ao desbloquear a palavra retida, dilui as
fronteiras entre literatura afro-brasileira, literatura brasileira e literatura
regional, nessa diluição consistindo uma das singularidades deste produto da
pesquisa realizada.
Ressalto
igualmente a escolha das ilustrações como porta de entrada aos capítulos e o
diálogo que estabelecem com as epígrafes, diálogo cuja eficácia demarca com
produtividade a progressão da análise em cada capítulo (Cap. 2 – página 14, cap
3, p. 21 – Foto de Edimilson; Cap. 4, p. 26 – o mais rico – cap. 5, p. 51 ) A
leitura crítica desta dissertação vista deste ângulo permite observar que ilustrações e epígrafes postas em intersecção
formam uma outra leitura simbólica dentro da leitura efetuada, destacando-a,
afirmando-a.
A singularidade da percepção da poesia de
Edimilson (p. 20 e 23) remete e sublinha a fertilidade do “enraizamento
dinâmico relacional” que colhe da obra da orientadora, Profª Drª Zilá Bernd, certo gesto de homenagem e de postura ética por
parte do mestrando, bem como no que toca à bibliografia: faz-se arquivo
essencial a todo pesquisador do tema de literatura afro-brasileira. O presente projeto de pesquisa configura-se como lugar-matriz e irradiador do pensamento
cultural brasileiro de natureza simbólica e não simbólica (amostragem: estudo
do Candomblé – p. 29, da religião – p. 32, do Congado – p 34).
Assim
procedendo, Breno evidencia o que intitula de “sedimentações e transformações”
(p. 31) de experiências vivenciadas e recuperadas pela memória, pela
diversidade e riqueza de formas memoriais aqui estudadas ou, dito de outro modo: surpreende nessa leitura da poesia de
Edimilson as múltiplas abordagens efetuadas com base na mediação da memória,
mas de uma memória viva considerada como memória do presente configurada em seu
constante desdobramento para dar conta de certa composição lenta e gradual da
identidade rizomática. De certo modo, percebo ao longo do texto, a presença de
Édouard Glissant no que diz respeito a poéticas das relações ou, como diz o
próprio autor: “Quand l’homme troube son paysage, le paysage de l’autre cesse
d’être aliénation”
É
exatamente esse traço da consciência
lúcida que permite ao mestrando recortar da poesia de
Edimilson a justa medida entre o que nomeia de “função social da literatura” e “trabalho
criativo da linguagem” (p.33).
Destaco dos poemas apresentados “Curiangu” (p.
35) pela pertinência do tema da memória infantil para a paisagem poética de
Edimilson (meninos, como diz, “guardadores de memória geracional” p. 38) e
depois acrescento p.47 menino: sujeito herdeiro e transformador da cultura.
Sendo que Breno lê esse simbolismo do infantil tanto do ponto de vista literário,
quanto do ponto de vista antropológico (cultura e transcultural da recordação
para ressimbolizar a questão da identidade negra (p.37, p.64 e p.60)
Outro
simbolismo que deve ser sublinhado é o do tambor, “Um tambor é um segredo” diz o poema
“Barbará, dono de segredos” (p.39), mais adiante também se refere ao tambor (p.
41 em “Os Tambores”). O tambor além de configurar a transferência pelo efeito
de propagação musical, também assegura o jogo entre o individual
(subjetividade) e o coletivo (subjetividade compartilhada), sublinhando a participação de um grupo e de sua
relocalização na história (exemplo poemas “Despedida” p 68).
Desejo
também destacar a fertilidade do estudo da literatura afro-brasileira na
contemporaneidade: ao estudá-la, Breno insinua o diálogo potencial dessa com outras
literaturas, do mesmo modo que cartografa um provável itinerário de pesquisa
para um merecido Doutorado que certamente virá (p. 69).
O
encerramento do percurso da análise pela evidência eficaz da palavra arremata-o
de modo muito coerente e produtivo o qual assegura a reflexão articulada nas
conclusões das quais destaco p. 72.
Elogio a construção do blog por sua pontualidade e
objetividade em perfeita consonância com o recorte da poesia efetuado e lido
simbolicamente e que, ao mesmo tempo, faz-se um convite a todo pesquisador –
estudioso de literatura híbrida. Logo, hibridismo e transculturalidade convivem
em teu trabalho de modo harmonioso e produtivo. E são justamente esses efeitos
de harmonia e de disseminação do blog os traços que desejo marcar e com os
quais brindarás teus leitores.
Parabéns
a ti e a tua orientadora.
Porto Alegre , dezembro de 2014 .
quinta-feira, 21 de agosto de 2014
MARCAS DE MEMÓRIA COLETIVA AFRO-BRASILEIRA EM “CAPELINHA”, DE EDIMILSON PEREIRA
Escrevi um artigo intitulado MARCAS DE MEMÓRIA COLETIVA AFRO-BRASILEIRA EM “CAPELINHA”, DE EDIMILSON PEREIRA que foi publicado na Revista Digital La Salle Estrela (http://www.lasalle.edu.br/faculdade/estrela/estrela-revista-digital/). Nele pretendo mostrar, à luz das teorias de Maurice Halbwachs sobre Memória Coletiva, que as nossas recordações não existem como ações isoladas, mas sim fazendo parte de um processo que tem como base o papel que exercemos enquanto grupo de uma sociedade, a partir da análise das marcas da memória coletiva afro-brasileira no poema “Capelinha”, do poeta mineiro Edimilson Pereira.
quinta-feira, 20 de março de 2014
Resenha Crítica
LIVRO: Hall, Stuart. A identidade cultural na pós – modernidade. tradução Tomaz Tadeu da Silva, Guacira Lopes Louro-11. Ed.- Rio de janeiro: DP&A, 2006.
Stuart Hall nasceu em Kingston, na Jamaica, em 3 de fevereiro de 1932 e faleceu em Londres em 10 de fevereiro de 2014. Hall foi um teórico cultural jamaicano que atuou no Reino Unido. Ele contribuiu com obras chave para os estudos da cultura e dos meios de comunicação, assim como para o debate político. O trabalho do escritor está centrado principalmente nas questões de hegemonia e de estudos culturais, a partir de uma posição pós-moderna. Em 1992 escreveu A identidade cultural na pós-modernidade.
A identidade cultural na pós – modernidade
Dividido em 6 capítulos, o livro de Stuart Hall, A identidade cultural na pós – modernidade, questiona as velhas identidades em declínio, indaga o conceito de identidade e como esta se correlaciona com todas as possibilidades oferecidas dentro da perspectiva de um mundo pós-moderno.
No primeiro capítulo: A identidade em questão, Hall diz que o propósito do livro é explorar algumas das questões sobre identidade cultural da modernidade tardia e avalia a existência de uma “crise de identidade”. Nesse capítulo, ele traça três concepções de identidade, a do sujeito do iluminismo, a do sujeito sociológico e a do sujeito pós-moderno. Após, faz uma reflexão sobre cada uma dessas identidades.
No capítulo seguinte, Nascimento e morte do sujeito moderno, Hall traça um esboço das ideias de alguns teóricos contemporâneos sobre as principais mudanças na forma em que o sujeito e a sua identidade são conceituados no pensamento da modernidade.
O objetivo de Hall com esse painel é mostrar os estágios através dos quais a visão do novo “sujeito humano” (grifo do autor) surgiu na idade moderna. Nesse capítulo, o sujeito humano nos é apresentado por Hall como uma figura discursiva que sofre influência tanto dos discursos do pensamento moderno quanto dos processos que molduram a modernidade. No final do capítulo, Hall diz que o sujeito da pós-modernidade deixa de ter uma identidade fixa, estável (sujeito do Iluminismo) e passa a ter uma identidade aberta, descentrada, fragmentada.
No terceiro capítulo, As culturas nacionais como comunidades imaginadas, Hall volta-se para a questão de como o “sujeito fragmentado” será colocado em termos de suas identidades culturais. O estudioso relaciona essa identidade cultural à identidade nacional. Mais adiante, desconstrói a ideia de “cultura nacional” (enquanto única). Trabalha a ideia de identidade e diferença, fala de identidade(s) cultural(is).
Globalização é o título do quarto capítulo, nele Hall discute a tensão entre o “global” e o “local na transformação das identidades nacionais que conduzirá à diversidade.
O quinto capítulo intitula-se O global, o local e o retorno da etnia, nele Hall examina os efeitos que a globalização sobre as identidades. Questiona as velhas identidades enraizadas. Encerra o capítulo falando das culturas híbridas contextualizadas na modernidade tardia.
Intitulado Fundamentalismo, diáspora e hibridismo, o sexto e último capítulo aborda a fusão entre diferentes tradições culturais produzindo novas formas de cultura.
De forma clara, Stuart Hall explora de forma clara, usando de uma linguagem simples, questões sobre a identidade cultural na modernidade tardia, afirmando , também, que as identidades modernas estão sendo descentradas, fragmentadas em crise.
É possível observar que para Hall, o nacionalismo e a rotulação de etnia seriam formas arcaicas de apego, uma forma de o indivíduo se caracterizar como parte da sociedade. Hall nos provoca, nos leva a rever as formas culturais concebidas socialmente e a capacidade de interpretação desse mundo pós-moderno.
sábado, 8 de março de 2014
O assumir-se negro
Durante muito tempo de escravidão, os negros trazidos para o Brasil tiveram sua cultura e raízes abafadas pelo modelo político-social vigente. ”Abolida" a escravidão no Brasil, a classe detentora do poder, em vez de criar políticas de integração dos negros por meio de programas de escolarização e saúde, preferiu esquecê-los. Nessa nova aparente condição, embora não mais fossem escravos, o negro não conseguiu cidadania. Passou então a competir socialmente em condições da mais absoluta desigualdade.
O processo de escravização quase eliminou os traços da identidade dos negros. E, se não bastasse, logo após a abolição, a pouca documentação sobre o tráfico negreiro foi destruída por ordem do então ministro Rui Barbosa, que pretendia, “eliminar a escravidão (...) por honra à pátria e deveres fraternais de solidariedade para com a grande massa de cidadãos que, pela abolição do elemento servil, entraram na comunhão brasileira”. (Schwarcz & Reis, 1996: 81). Para os negros, essa crueldade foi ainda pior que a própria escravidão. O atual conhecimento sobre a cultura negra foi, em sua maior parte, transmitido oralmente, conforme destaca Colina (1982: 7): “nossa História/Estória foram mantidas boca-a-boca. E de fogueiras a bocas-de-fogão e mesas, perduram até hoje, questionando a verdade encapuzada da história estabelecida”.
Desse contexto, resulta, no Brasil atual, a grande importância da literatura negra, manifestação artística cujo surgimento, segundo Bernd (1988), está ligado à compreensão do conceito de negro, termo que pode nos remeter a duas realidades: “tanto (...) à ofensa e à humilhação, quanto” à “expressão de orgulho”. (Bernd, 1988: 96). Ainda segundo essa estudiosa, ”através da poesia, negro se liberta da imagem quase sempre estereotipada com que foi apresentado desde sua chegada ao Novo Mundo”.
O aprofundamento de uma consciência negra para uma nação mestiça é, portanto, fundamental. A expressão artística foi o meio que inúmeros poetas encontraram para combater e libertar seu povo do preconceito e integrá-los à sociedade. O discurso poético, então, é o espaço de onde surgem o conceito de negritude e a tomada de consciência desse negritude. Resulta daí a necessidade de uma poesia negra, que expressa a verdade de uma comunidade, que fale de si próprio com orgulho e expressão assumida.
Fazendo de sua poesia uma arma, o poeta Solano Trindade denunciou as mazelas sociais decorrentes do preconceito. Ao longo da vida, ele foi vítima de vários tipos de preconceito por ser negro, pobre e nordestino. Com o objetivo de divulgar os intelectuais e artistas negros, fundou a Frente Negra Pernambucana e o Centro de Cultura Afro-brasileiro. Editou seu primeiro livro em 1944 (Poemas de uma vida simples), o segundo, em 1958 (Seis tempos de poesia) e o terceiro em 1961(Cantares ao meu povo).
Solano Trindade desenvolveu uma intensa atividade cultural voltada para o folclore e para a denúncia do racismo, prestando significativa contribuição à cultura nacional, quer pelas realizações, quer pela pesquisa dos fatos da cultura popular. A obra dele representa a expressão artística de uma etnia socialmente marginalizada, injustiçada, mas que hoje enfrenta a tarefa histórica de reconstruir sua própria identidade para adaptar-se às exigências do mundo contemporâneo e resistir, desta vez, ao apagamento de culturas minoritárias em favor da cultura de base judaico-cristã, ocidental e capitalista.
Observe este belo exemplo de Solano Trindade:
SOU NEGRO
A Dione Silva
Sou Negro
meus avós foram queimados
pelo sol da África
minh`alma recebeu o batismo dos tambores atabaques, gonguês e agogôs
Contaram-me que meus avós
vieram de Loanda
como mercadoria de baixo preço plantaram cana pro senhor do engenho novo
e fundaram o primeiro Maracatu.
Depois meu avô brigou como um danado nas terras de Zumbi
Era valente como quê
Na capoeira ou na faca
escreveu não leu
o pau comeu
Não foi um pai João
humilde e manso
Mesmo vovó não foi de brincadeira
Na guerra dos Malês
ela se destacou
Na minh´alma ficou
o samba
o batuque
o bamboleio
e o desejo de libertação...
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BERND, Zilá. Introdução à literatura negra. São Paulo: Brasiliense, 1988.
BERND, Zilá. Negritude e literatura na América Latina. In: Rosa Helena Blanco & Márcia Rios da Silva. (Org.). Estampa das Letras: literatura, lingüística e outras linguagens. Salvador: Quarteto, 2004.
CAMARGO, Oswaldo de. O negro escrito. São Paulo: GRD, 1987.
COLINA, Paulo. Antologia contemporânea da poesia negra brasileira. São Paulo: Global, 1982
FONSECA, Maria Nazareth Soares. Visibilidade e ocultação da diferença: imagem de negro na cultura brasileira. Belo Horizonte: PUC-Minas, 2001.
FRAGOSO, Frei Hugo. O etnocentrismo na primeira evangelização do Brasil. Convergência, 233, 199?.
FRIZOTTI, Heitor. O resgate da identidade negra. In: Antônio Aparecido da Silva (org). Existe um pensar teológico negro? São Paulo: Paulinas, 1998.
HISTÓRIA negra. parte 2. Disponível em: www.racablac.vilabol.uol.com.br./historiablac.htm
PEREIRA, Edimilson de Almeida & GOMES, Núbia Pereira de M. (2001). Ardis da imagem: exclusão étnica e violência nos discursos da cultura brasileira. Belo Horizonte: Maza/ EDPUCMG.
SCHWARCZ, Lilia Moritz & SOUZA REIS, Letícia Vidor de. (Org.). Negras imagens: ensaios sobre cultura e escravidão no Brasil. São Paulo: EDUPS, 1996.
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